Falta água e outros serviços públicos. O que pode ser feito pelos governos?

24 jun, 2014 | 2 Comentários »

Em 88 nos Estados Unidos um grupo de profissionais que atuava com gestão de riscos, segurança e prevenção a desastres se reuniu e formou o que seria logo chamado de DRII – Disaster Recovery Institute International (Instituto Internacional de Recuperação de Desastres) acesse o https://drii.org/ e conheça-o. Atualmente o DRII está presente em mais de 100 países com mais de 20 mil profissionais certificados e habilitados a trabalhar com PREVENÇÃO, ESTRATÉGIA, PLANEJAMENTO, RESPOSTA A EMERGENCIAS E INCIDENTES e CONTINUIDADE DE NEGÓCIOS. Aqui no Brasil a DARYUS Educação os representa e oferece aos profissionais a opção de especializar-se no tema CONTINUIDADE DE NEGÓCIOS.

O que isto tem a ver com a crise de falta de água em SP e no que poderia ajudar os governos e vários setores de prevenção a melhorar ainda mais seus esforços e equipes?

Primeiro, muitos membros nos Estados Unidos, Europa e Asia do DRII são funcionários do governo. Nos EUA por exemplo, existe o Disaster Recovery framework. Uma estrutura planejada de resposta a incidentes, crises e desastres e que envolve várias agencias publicas como o FEMA (www.fema.org), a defesa civil americana. Apresentei isso ao ex-secretário geral de defesa civil, Cel. Humberto Viana, que achou muito interessante e pretendia trazer este tipo de conhecimento ao Brasil. Infelizmente devido a questões políticas saiu do governo.

Segundo, creio que o tema CONTINUIDADE DE NEGÓCIOS seja interpretado de uma forma incorreta no Brasil, onde muitos, e principalmente no governo, creem que é assunto de TECNOLOGIA ou algo relacionado a SEGURANÇA DA INFORMAÇÃO. Venho a muitos anos palestrando, escrevendo e falando sobre isso, porém mesmo formando profissionais aqui no Brasil ainda temos poucos certificados e em condições de criar planejamentos e PLANOS DE CONTINUIDADE DE NEGÓCIOS para serviços e negócios que atendem a sociedade. Isto não é uma critica aos profissionais, muito pelo contrário. É uma critica ao mercado nacional e à FALTA DE VISÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA, que é extremamente reativa em temas como este.

PLANO DE CONTINUIDADE DE NEGÓCIOS PARA SERVIÇOS PÚBLICOS.

Qual é o foco de um Plano de Continuidade de Negócios?

Bom, um Plano de Continuidade de Negócios não é apenas um papel com um plano romântico que serve para contar história. É o produto de um processo de Gestão que precisa ser formalizado e existir de fato.

Nos serviços públicos, como em qualquer prestação de serviços, é preciso identificar o que é fundamental e planejar a continuidade. Vejamos:

Vamos fazer uma Análise de Impactos (BIA), rápida para serviços fornecidos pelo governo: (consiste em pensar no pior cenário, ou seja, na interrupção prolongada do fornecimento ou prestação destes serviços à população no pior momento do ano)

1) Fornecimento de água
– impactos: imagem da administração, financeiros diretos e indiretos e impactos operacionais
2) Fornecimento de energia
– impactos: imagem da administração, financeiros diretos e indiretos, legais e impactos operacionais
3) Serviços de segurança pública
– impactos: imagem da administração, financeiros diretos e indiretos, legais e impactos operacionais
4) Serviços de saúde pública
– impactos: imagem da administração, financeiros diretos e indiretos e impactos operacionais
5) Serviços de assistência social
– impactos: imagem da administração e impactos operacionais
6) Fornecimento de educação pública
– impactos: imagem da administração, financeiros diretos e indiretos e impactos operacionais

É possível fazer um Plano de Continuidade de Negócios?

Sim, por exemplo, identificando todos os recursos necessários para o fornecimento de água que suportam este serviço, logo veremos: água (insumo), pessoas (técnicos e especialistas), tecnologia (equipamentos mecânicos e eletrônicos), parceiros e provedores (empresas que ajudam e prestam serviços para o governo nisso), informação (necessária em vários momentos) e infraestrutura (locais, estações de tratamento e outros prédios necessário, bem como locais de armazenamento). Isto posto, temos que identificar o que temos e em quais quantidades e capacidades, para planejar a continuidade de serviços num PIOR CENÁRIO, ou seja: A falta de água por vários meses consecutivos numa cidade como SP, de Novembro a Março.

Água – é um insumo principal e valioso, e cada vez mais raro. Raro por que? Por que é escasso e limitado. A quantidade de água no planeta não aumenta e o tratamento para uso é caro e leva tempo. Podemos usar água do mar? Sim, porém o tratamento é especifico. Aquíferos? Sim, porém é custoso. Água da chuva? Sim, quando temos chuva em volumes favoráveis. Criar reservatórios planejados de captação e armazenamento principais e de CONTINUIDADE? Sim, e isto precisa ser feito e implementado de 3 a 5 anos antes de precisar, para que tenha reservar emergenciais suficientes. Envolve INTENÇÃO, PLANEJAMENTO, GESTÃO DE CONTINUIDADE, TECNOLOGIAS e CORAGEM. É possível planejar a continuidade no fornecimento deste insumo, como na maioria deles, porém com muita antecedencia. Muitos insumos, exigem um armazenamento, tratamentos com custo duplicado, logistica de transporte ou transmissão e obras complexas. O Japão é um exemplo de como prover uma capacidade de resposta a incidentes para estes serviços, pois estão acostumados com grandes desastres. Jeferson, não é caro pensar e investir em uma estratégia complexa que levaria anos de implementação para um “Cenário que nunca pode ocorrer de fato”? Não. Se fizermos análises de riscos com foco em serviços periodicamente (ver a ISO 31000 e a ISO 22301), qualquer prestador de serviço, seja público ou privado, entenderá que o custo para se reagir a eventuais crises ou desastres SEM PREPARAÇAO anterior ou um bom Plano de continuidade de negócios (PCN) é muito maior, sem contar os impactos de imagem e legais incalculaveis.

PESSOAS – é um ativo principal, visto que para fornecer água a população não é somente tê-la é necessário especialistas na captação, tratamento e distribuição. Vários profissionais e consultorias podem ser envolvidos para as estratégias de CONTINUIDADE possíveis. Ao traçar as estratégias teremos que prová-las e validar, para que possamos ter condição de implementar. Pessoas, devidamente capacitadas e com as competências certas, incluindo profissionais de continuidade são fundamentais. E pessoas desorganizadas não servem para nada, é necessário processos que são executados organizadamente e cronologicamente para que os objetivos sejam atingidos. Lembrando que: Não é responsabilidade SOLITÁRIA do governo fazer tudo a respeito do PCN. Ele deve encabeçar, liderar, organizar, porém a população, empresas especializadas e outras empresas podem e devem participar de todo o desenvolvimento, aprovação e implementação.

Tecnologias – fundamentais e para isto temos hidro, eletro e técnica. Além de muitos servidores, sensores, medidores e outras tecnologias de automação eletromecânicas envolvidas. Quais tem continuidade? Eles possuem condições de disponibilidade? Como se fará a recuperação em caso de incidentes ou desastres? Compro, desenvolvo (por exemplo com universidades públicas) ou adapto? Tecnologia pode ser a saída para muitas estratégias, e temos ótimos profissionais nas univerdidades. Pela falta de planejamentos como este, muitas verbas deixam de ser investidas em pesquisas ou desenvolvimentos especificos de proteção aos serviços essenciais da população, e isto é uma cultura ruim e ultrapassada que ainda temos no Brasil.

Parceiros e provedores - muitos são essenciais, outros críticos, outros de apoio outros substituíveis. Precisamos identificar, classificar e planejar como faríamos a continuidade e contingencia destes serviços. Muitas vezes temos dependência, e este é um cenário a ser analisado.

Informação - critica, essencial, vulnerável e que precisa ter sua integridade, confidencialidade e disponibilidade garantida no processo de continuidade de negócios. Quanto vale a informação neste serviço? O quanto essencial é? Como protegê-la? e o quanto é importante na estratégia de continuidade deste serviço?

Bom, estou escrevendo e pensando nisso rapidamente, porém creio que, com uma análise cuidadosa e entendendo todos os processos necessários para o fornecimento de água, consigamos fazer um ótimo Plano de Continuidade de Negócios para isto. Terminamos por aqui? Não.

Além de identificar os processos, pessoas e tecnologias necessárias, é necessário educar as equipes da administração pública, começando pelo executivo, depois passando aos níveis gerenciais, e por último, não menos importante, as equipes operacionais. Todos têm responsabilidades num Plano de Continuidade e todos tem tarefas especificas a realizar antes, durante e depois de uma crise ou desastre.

O gerenciamento de crises é uma parte fundamental da resposta a crises ou desastres. A continuidade de negócios cuida disso. Não é só comunicação em crises, é todo o envolvimento, equipes, planejamento, CONDICIONAMENTO de resposta, incluindo a comunicação. Sala de crises, plano de gerenciamento de crises, planos de comunicação e outros são fundamentais.

Criar fundos de reserva para estas situações, é outra parte importante e necessita de planejamento, esforço executivo de prefeitos, governadores e aprovação de câmaras em geral. Sem falar da opinião pública que precisa ser trabalhada.

É possível planejar a continuidade de serviços essenciais e enfrentar crises de uma forma mais inteligente e organizada? Sim. Como? Investindo de modo global em continuidade de negócios, começando por uma mudança no entendimento dos altos executivos do governo, e criando condições para tal. Não existe “bala de prata” para isto. Existe planejamento, preparação e muito esforço.

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2 Comentário
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  1. No caso da água os impactos são muito maiores do que de imagem e legais, são VITAIS para todos nós. Cada um deveria fazer sua parte, mas o que temos presenciado nos últimos tempos, infelizmente não mostra planejamento nenhum!

  2. Concordo! Esta crise de água poderia ter sido prevista, planejada e um Plano de Continuidade traçado pelos governos, porém a população precisa ser reeducada a utilizar melhor TODOS os recursos naturais. No Brasil creemos que abundância nunca representará escassez.

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